Não deixe a universidade te engolir

28/10/2019


*lá vem a Letícia com textão*

Antes de qualquer coisa, queria dizer pra você não se obrigar a fazer uma faculdade porque outras pessoas querem, e pelamor da deusa, não se sinta culpadx por isso. Já é difícil o suficiente quando VOCÊ quer, não querendo é pior ainda. Outra coisa, graduação é algo superestimado. A universidade não é esse lugar mágico e cheio de gente iluminada que algumas pessoas pintam.

Agora vamos ao texto...

Quanto mais próxima eu chego do fim da graduação, menos eu gosto dela. Não da profissão, eu realmente gosto do jornalismo; mas da graduação em si, da instituição onde estudo, do corpo docente, do mercado de trabalho... Vou explicar porque.

A universidade é um negócio engraçado. Ela te esgota profundamente com a desculpa de estar fazendo isso pelo seu próprio bem e, acredite ou não, ela está mesmo, porque no mercado de trabalho a cobrança por perfeição e produção massiva é muito pior. Humanidade? Esqueça. Quanto mais próximo de um robô você chegar, melhor. Não é em toda empresa que as coisas funcionam assim, mas é na grande maioria. Meus professores fazem questão de lembrar a gente disso.

Eu percebo que grande parte dos profissionais do jornalismo, principalmente a galera da era pré internet (impresso/tv/rádio), ainda vê a profissão como um estado de espírito e acredita que jornalista bom é jornalista que não dorme (24 por 7), que abre mão da vida pessoal e do lazer em nome do trabalho. Escuto essas coisas da maioria dos meus professores e acredito que não seja uma ideia presente só no jornalismo.

Lembro que meses antes do vestibular eu li um texto que pregava exatamente essa “filosofia” e fiquei encantada. Hoje, quase 4 anos depois, vejo o quanto essa ideia é lucrativa pro patrão e nociva pro mero empregado que vive uma rotina desumana e adoece aos poucos. Profissão nenhuma pode ser um estado de espírito, ela deve ser apenas isso: uma profissão... da qual a gente pode e deve se desligar em alguns momentos.

E falando dos professores, o corpo docente do meu curso também é bem engraçado (só que não). Eles acham que nós “só estudamos”. Pra eles, nós não temos família, emprego, casa pra cuidar (seja sozinho ou ajudando os pais), amigos, hobbies e necessidade de, às vezes, ficar uns 30 minutinhos olhando pro teto só pra desacelerar. Não, não, sua alma pertence à universidade, e mais do que isso, tem professores que pensam que a disciplina deles é o centro do universo, logo, sua alma é exclusivamente dela.

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"Eu pensei que só precisasse de uma noite de sono, mas é mais do que isso"

Eu demorei três anos pra perceber que não posso deixar a graduação me engolir, que não posso deixar ela dominar minha vida, me privar de lazer, noites de sono e etc. Demorei pra perceber que tá tudo bem pegar dp, porque não tem como dar conta de tudo e é preciso abrir mão de algum trabalho, às vezes, pelo bem da minha saúde mental. Demorei pra perceber que tá tudo bem terminar um curso de 4 anos em 5 ou 6. Isso tudo não me faz incapaz, relaxada, fraca, apesar de muita gente tentar colocar isso na minha cabeça. Reconhecer que somos seres humanos, não máquinas, e respeitar nosso tempo e limites é a maior prova de amor e respeito que podemos dar pra nós mesmos. Eu demorei muito pra perceber tudo isso. Tempo que custou um pouco da minha saúde física e mental - que tô tentando recuperar aos trancos e barrancos.

Por favor, não chegue ao mesmo nível que eu.

Você aí, que está começando ou ainda nem começou a graduação, guarde isso no coração e na cabeça: dedicação que te leva ao esgotamento definitivamente não é algo saudável e normal, por mais que se pregue que é. Quando a cobrança por emprenho e produtividade se torna algo nocivo e desumano, ultrapassou-se o limite do normal.

Não é normal constantemente abrir mão de coisas por conta da graduação, não é normal se sentir culpado por dormir 8 horas ou por sair aos finais de semana, não é normal desenvolver insônia por causa da faculdade, não é normal se alimentar mal por falta de tempo, não é normal perder a vontade de fazer as coisas que gosta por conta do cansaço, não é normal ter crises de ansiedade e estresse o TEMPO INTEIRO, não é normal não ter tempo pra cuidar da saúde, não é normal se sentir agredido, fracassado ou discriminado dentro da sala de aula, não é normal seu professor achar que você tem que viver para a faculdade (ou para a matéria dele), não é normal se sentir incompetente por causa de uma nota, não é normal sacrificar sua saúde mental por um diploma e, definitivamente, NÃO É NORMAL OUVIR QUE O QUE VOCÊ ESTÁ SENTINDO É FRESCURA.

“Se não está aguentando a pressão, tranque o curso e vá se tratar.” 
- fala que saiu da boca de um professor meu, em tom de deboche.

Essa pode até ser a sociedade na qual vivemos hoje, mas não é normal e precisamos parar de aceitar e reproduzir esse discurso. Acho que o primeiro passo pra mudar esse cenário é parar de tratá-lo como normal.

Não quero que você desista do seu sonho de cursar uma graduação, não mesmo! Só quero que você a encare com essas coisas na cabeça. Não demore o mesmo tempo que eu pra perceber que a universidade não tem o direito de dominar sua vida e sua mente. Não deixe ela te engolir.